
| por (08/05/2004) |
O que me conduz a ele?
Uma matéria recentemente publicada na revista Veja enfocou os atrativos oferecidos pela carreira pública aos profissionais, sobretudo os da classe média, que, cada vez mais, distanciam-se dos riscos inerentes ao empreendedorismo e se predispõem a trabalhar para o governo. De fato, é inegável que, nos últimos anos, o emprego público recuperou parte da atração que outrora exercia sobre profissionais de diversas áreas.
Se, por um lado, a estagnação econômica e as incertezas do mercado global dificultam e até inibem as iniciativas na esfera privada, por outro, há um grande movimento nos governos federal, estaduais e municipais voltado para a qualificação e valorização do servidor público.
O quadro econômico, capitaneado pelos juros altos e conseqüente cenário recessivo, atinge, num primeiro plano, o oferecimento de vagas aos novos profissionais, com raras exceções. No geral, está havendo um deslocamento do índice de vagas do setor industrial para o setor de serviços. Nota-se, também, uma certa expansão na chamada agroindústria. Entretanto, tais movimentos demonstram, no quadro atual, ser insuficientes para abrigar a grande massa de pessoas que, a todo instante, ingressam no mercado. Os avanços tecnológicos que resultam numa melhor eficácia produtiva geralmente não vêm acompanhados da geração de empregos, pois tendem, em boa parte das áreas, a reduzir a carência de empregados, em face da otimização que propiciam.
Noutro plano, a atmosfera econômica atinge também o jovem profissional, “ex-futuro” empreendedor, que se intimida a investir e a assumir riscos tão evidenciados quanto anunciados. A insegurança econômica acaba por podar o jovem empreendedor, dizimando parte da usina de criatividade de que o país tanto necessita.
Sem poder contar com a disponibilidade de vagas no mercado e sem poder se utilizar dos seus próprios atributos (e capacidade de investimento...) para criar e manter seu próprio negócio, o candidato a emprego na esfera privada ou candidato a empreendedor se depara, então, com a possibilidade de ser candidato a um emprego público; prefere, portanto, não engrossar os índices alarmantes de empresas que se encerram antes mesmo do primeiro aniversário.
Para completar o quadro de concorrência ao emprego público, adicionemos o profissional que até está empregado, mas em decorrência de uma conjugação de fatores como remuneração, estabilidade, etc, opta por disputar uma vaga pública na esperança de ser aprovado, convocado e nomeado.
Enquanto isso, apesar de deficiências facilmente visíveis, a administração pública vem se modernizando. Os últimos anos foram acompanhados de relevantes investimentos em instalações físicas, adesão tecnológica e, principalmente, qualificação do servidor público. Claro que aqui ou ali esses avanços ainda não se concretizaram. Mas, aquele que venha a se empregar na União, em muitos Estados e nas Capitais ou em grandes Municípios, terá grande chance de constatar tal processo de evolução. A constante e crescente necessidade de arrecadação tem propiciado às áreas fazendárias, por exemplo, significativos saltos tecnológicos aliados a uma forte política de treinamento do fisco. Outro indicador de reestruturação da administração pública é a consolidação de cargos como o de especialista em finanças públicas e gestor público, com vários concursos acontecendo pelo Brasil: profissionais que possam, efetivamente, se engajar para promover o aprimoramento da máquina estatal, para que esta cumpra com suas funções e atenda bem ao cidadão.
Notem que o outro lado dessa moeda também é inequívoco. Na medida em que a área pública vai se desenvolvendo, cresce a necessidade de efetiva contribuição dos profissionais que nela vão ingressando. Diríamos: efetiva conscientização de que estamos ingressando na carreira pública com a responsabilidade de mirar a eficiência na prestação dos serviços públicos e a conseqüente satisfação das necessidades coletivas. Hoje, o candidato deve começar a ter ciência de que o Estado quando o convocar, o fará porque precisa dele e irá cobrá-lo. Mas aí já estamos entrando no tema de um outro texto.

Márcio Antônio Rocha