
| por (05/03/2001) |
A truculência do Canadá, suspendendo na marra a importação da carne bovina brasileira e de seus derivados, a despeito da enorme humilhação que infringe ao País e aos prejuízos que está acarretando ao setor atingido e às exportações, produziu alguns efeitos salutares.
Avivou o sentimento de brasilidade, de valorização do que é nosso, e demonstrou o terrível equívoco da incorporação à política econômica do País, da teoria da globalização, de forma vassala e acrítica.
Os anos 90 do século passado foram caracterizados aqui pela intoxicação da globalização. Ela foi imposta como imperativo categórico, determinismo inescapável, para a modernização do País e atualização do nosso sistema produtivo e do mercado, às novas condições de competição que tinham surgido no plano internacional.
Em verdade, a globalização constitui denominação amena para impor o domínio, dos países desenvolvidos sobre os em desenvolvimento, principalmente em favor da potência hegemônica, os Estados Unidos. É nova roupagem para o velho imperialismo.
O governo FHC, encantado pela globalização, viabilizou, com eficácia, o atrelamento do País aos interesses dos países desenvolvidos. Aprofundou a liberação alfandegária iniciada por Fernando I, que produziu imenso choque tecnológico, fechando empresas e provocando o desemprego em massa. Para baratear o custo da mão-de-obra, sob o eufemismo da flexibilização das relações de trabalho, erodiu direitos trabalhistas consagrados na Constituição; sob o pretexto de melhor prestação de serviços, alienou o patrimônio público, consubstanciado nas empresas estatais, ao controle estrangeiro; está, sob a ótica da desregulamentação, destruindo o serviço público, pelas condições adversas que têm criado, como a quebra da estabilidade do servidor público, represamento de seus vencimentos (há mais de cinco anos sem reajuste).
Em suma, foi feito strip tease nacional. Foram sendo, gradativamente, despojadas as proteções ao trabalho, às empresas e às riquezas nacionais, sob a justificativa de adaptação do País ao considerado inexorável processo da globalização. Sob o ponto de vista do interesse nacional, a política econômica adotada apresenta consistência de banana.
Daí, o Canadá e seus parceiros do NAFTA (Associação de Livre Comércio da América do Norte), México e Estados Unidos, terem, despudoradamente, humilhado o Brasil. Tratou-se o Brasil como se fora uma banana repúblic, onde os dominadores podem tudo, sem cerimônia ou sutileza.
A nossa expressão territorial e populacional, as riquezas de que somos dotados, o grau de desenvolvimento alcançado na área industrial, o nosso povo, mobilizado como nação, evidentemente, não podem sujeitar-se eternamente à humilhação de serem monitorados pelo FMI, em submissão servil ao estrangeiro, que vai dominando nossos setores estratégicos, ocupando o espaço territorial vital, em versão moderna de dominação colonial.
"Quem semeia ventos, colhe tempestades", diz o velho ditado. Tantos ventos de bonança, aragens amenas à entrada dos dominadores estrangeiros foram patrocinados pelo governo FHC, que o Canadá, sem vaca louca por aqui, interditou a importação da carne brasileira. Cometeu equívoco. Confundiu governo com nação. Verdade, o governo é servil e submisso. É como a Joana, engole tudo. Mas a nação, pelo seu povo, está demonstrando a rejeição aos ucasses desarrazoados e ensandecidos. Reforçou-se o orgulho nacional.
Em breve, as eleições de 2002 vão chegar, e será a oportunidade de exportar a atual casta dirigente apátrida para os países desenvolvidos, onde se sentirão confortáveis e adaptados. O povo vai exportar o supérfluo.

Osiris Lopes Filho