
| por (24/06/2008) |
O exame da tendência histórica dos índices pode não indicar se os mesmos estão em níveis considerados como ideais. Para a análise comparativa é então necessário estabelecer os índices paramétricos (padrões), os quais requerem em sua determinação uma completa análise setorial. No entanto, os resultados da análise setorial não expressam necessariamente os índices ideais a serem almejados. Isso ocorre porque empresas que são classificadas em um mesmo setor podem ter diferentes portes, diferentes linhas de produção, diferentes ciclos de vida de produto, conduzindo a diferentes níveis de estoques, de recebimento e de pagamento de duplicatas.
Outra questão importante diz respeito à obrigatoriedade de se comparar os índices numa mesma dimensão temporal. É possível que os balancetes solicitados pelo banco, para complementar a análise, se refiram a um período no qual o efeito da sazonalidade das vendas impeça que sejam apurados os resultados reais da empresa até o final do referido exercício.
Como estes índices derivam das demonstrações contábeis, verifica-se que a legitimidade dessas informações se depara com uma série de barreiras um tanto difíceis de serem ultrapassadas. Como se trata de uma fotografia da empresa em determinado balanço, convencionou-se que o momento para a pose é o final do exercício fiscal. Essa determinação da legislação é uma forma de harmonizar o recebimento das informações pelo fisco, mas ela ignora os diferentes ciclos de produção de cada empresa, inclusive abrindo lacunas para que sejam manuseadas as contas, principalmente a de estoques. Isto traz benefícios à empresa, em detrimento da qualidade da informação.
A contabilidade trabalha como regra, com dados históricos fazendo abstração do valor do dinheiro no tempo. O problema é maior em economias com altas taxas inflacionárias. No Brasil, mecanismos muito difusos e questionáveis de ajuste dos balanços são propostos pelo fisco a um reduzido número de empresas, as sociedades anônimas de capital aberto. Para as demais empresas de capital fechado e limitadas, as demonstrações perdem um pouco da credibilidade, pois não consideram nem mesmo esses mecanismos limitados de correção dos efeitos inflacionários.
O efeito da inflação aliado à legislação contábil brasileira provoca situações no mínimo constrangedoras aos analistas. Três especialistas qualificados (Contratados pela revista Exame), na área de finanças analisaram o mesmo balanço de uma empresa, chegando cada um a conclusões diferentes; uns identificando prejuízos, outros lucros.
Há uma série de dificuldades existentes para se extrair informações mais concretas em relação ao desempenho da empresa que se está analisando. A partir do momento em que se verificam essas limitações, questiona-se o resultado - Lucro. Uma vez que ele pode ser facilmente manipulado, empresas com lucros não necessariamente têm caixa para pagar suas contas. Em outras palavras, o lucro não dá a informação real sobre a capacidade de pagamento da empresa.
Para sanar este problema as demonstrações contábeis são acompanhadas de fluxos de caixa elaborados para o curto prazo. Neste caso, os efeitos negativos das projeções não tiram a validade do fluxo de caixa como poderoso instrumento de apoio ao analista, podendo o mesmo avaliar mais corretamente o desempenho da empresa, e principalmente, sua efetiva capacidade de pagamento.
Uso da análise de balanços para a tomada de decisão, segundo o Prof. Dr. Sérgio de Iudícibus:
A análise de balanços deve ser entendida dentro de suas possibilidades e limitações. De um lado, mais aponta problemas a serem investigados do que soluções; de outro, desde que convenientemente utilizada, pode transformar-se num poderoso ‘painel de controle’ da administração.
Sobre os objetivos e critérios da análise de balanços, o Prof. Dr. Alexandre Assaf Neto, complementa:
Através das demonstrações contábeis levantadas por uma empresa pode-se extrair, por um processo de análise, uma série de informações e conclusões sobre sua posição financeira e econômica. Por exemplo: um analista poderá obter conclusões sobre a atratividade de investir em ações de determinada companhia, se um crédito solicitado merece ou não ser atendido, se a capacidade de pagamento (liquidez) está boa ou má, se existe rentabilidade adequada na atividade operacional da empresa e assim por diante
(...). A análise de balanços visa relatar, a partir das informações contábeis fornecidas pelas empresas, a posição econômico-financeira atual, as causas que determinaram a evolução apresentada e as tendências futuras. Em outras palavras, pela análise de balanços extraí-se informações sobre a posição passada, presente e futura (projetada) de uma empresa.
A maneira com que os indicadores de análise são utilizados é particular de quem faz a análise, sobressaindo-se, além do conhecimento técnico, a experiência e a própria intuição do analista. Dois analistas podem chegar a conclusões bem diferentes sobre uma empresa, mesmo tendo eles trabalhado com as mesmas informações e utilizado iguais técnicas de análise. As conclusões de diferentes analistas, por outro lado, poderão estar bem próximas, conforme demonstrem mais nível de experiência. No entanto, dificilmente, apresentarão conclusões exatamente iguais.
O Prof. Raimundo Aben Athar, enfatiza a questão das limitações da análise de balanços:
(...) deve-se reconhecer que a análise de balanços apresenta certas limitações, mas mesmo quando somente aponta problemas a serem investigados transforma-se em um poderoso instrumento de controle da administração das empresas. Dois fatores precisam ser levados em conta numa análise:
• A temporalidade das operações, posto que os relatórios devem ser analisados à vista de diversos demonstrativos contábeis, em seqüência cronológica, a fim de se constatar as tendências e evolução da empresa;
• A análise de balanços deve ser comparativa, observando-se o desempenho da empresa analisada com outras empresas do mesmo ramo de atividade.
Diz-se que os índices ou quocientes apurados são estáticos, representam a relativização de um momento, daí o uso geral de que as peças contábeis são “fotografias”, mas vejam, várias “fotografias” formal um “filme” e um “filme” nada tem de estático e aí com uma boa série histórico e padrões de comparabilidade confiáveis, a análise de balanços, mesmo com algumas limitações, é mesmo um poderoso instrumento para se tomar decisões em questões econômico-financeiras.
Pagamentos e recebimentos trazem, resumidamente, três problemas em sua análise:
a) Problema do Tempo e fluxo dos pagamentos;
b) Problema dos padrões dos índices;
c) Temporalidade do Balanço Patrimonial e vencimentos de direitos e obrigações.
Ao analisar diretamente pelo índice de liquidez, por exemplo, estamos determinando somente o quanto se tem para o quanto se deve. Do ponto de vista prático, podemos ter vencimentos concentrados para o dia seguinte, e isto não aparece na interpretação. O padrão de liquidez é outro ponto importante para se levar em consideração. Cada ramo de atividade tem seu nível “ideal”. Ao analisar a questão da liquidez, devemos ter idéias claras do que estamos analisando, quais são as informações e para que estamos utilizando, pois caso contrario estaremos apenas efetuando cálculos de proporção e não de realidade imediata dos negócios. Também devemos sempre considerar que o “retrato” estático deve ser tratado como tal e, portanto, não existe basicamente uma previsão determinada.
Segundo Iudícibus & Marion:
As limitações da análise financeira prendem-se basicamente à diversidade de métodos contábeis adotados pelas empresas, até dentro do mesmo setor. Também, a própria natureza estritamente financeira das indagações retrata as limitações implícitas em todo o método contábil.
O gestor de empresas deve ter o bom senso de utilizar as informações contidas nas demonstrações financeiras e discernir sobre os efeitos reais sobre a empresa analisada. Por outro lado, é sempre importante trazer o meio-termo da discussão e alertar os analistas sobre a simplista popularidade dos índices de liquidez. A facilidade de cálculo e a análise focada na proporção matemática tornam-se cada vez mais perigosas.
Resumindo, as principais limitações na análise por índices são:
- Dificuldade no estabelecimento de índices padrões.
- Sazonalidade de vendas que impedem uma visão real da situação da empresa.
- Legitimidade das informações.
- Regra, trabalha com custos históricos. A comparação de dados de épocas distintas não nos dá uma visão real. O problema piora no caso de altas taxas inflacionárias.
- Dificuldades inerentes na extração de informações concretas em relação ao desempenho.
- Datas de pagamentos e vencimentos concentrados dificultam a análise, principalmente dos índices de liquidez.
- Diversidade de critérios contábeis adotados, o que dificulta a comparação.

Bernardo Cherman